[depoimentos]

“Roteirista, juntamente comigo e com Armando Costa, de meu primeiro longa-metragem, Copacabana me Engana, Leopoldo Serran enriqueceu o filme com sua elegância e seu humor sardônico, particularmente notável nas cenas em que o personagem Marquinhos (Carlo Mossy) contracena com o personagem Alfeu (Paulo Gracindo). Posteriormente, na TV Globo, tive o imenso prazer de compartilhar com ele, Aguinaldo Silva e Doc Comparato, da criação da série Plantão de Polícia. De uma cultura e de uma rebeldia insuperáveis, Leopoldo sempre foi para mim a epítome de um roteirista que jamais aceitou desmerecer seu talento e sua arte em troca de retornos meramente financeiros. Em suma, um verdadeiro e autêntico artista do drama e da palavra.”
Antônio Carlos da Fontoura
[Cineasta, roteirista, diretor de Copacabana Me Engana ]
“Sempre tive grande admiração e respeito pela obra do Leopoldo. Trabalhei com ele escrevendo à mão em vários trabalhos. Muitas saudades dele, do mau humor sempre criativo e desejando o melhor. Assim como tantos outros roteiristas, nos faz a maior falta tanto na televisão como no cinema, e que bom que estejam fazendo essa homenagem a ele. Um profissional que infelizmente nos deixou muito cedo e que até hoje nos faz muita falta, deixando boas lembranças e saudades”.
Marcos Paulo
[Diretor de televisão e ator]
“Leopoldo Serran, um dos melhores roteiristas com quem tive o privilégio de trabalhar. A Estrela Sobe, Dona Flor, Amor Bandido e O Que é Isso, Companheiro?, o meu primeiro sucesso de crítica e de público, o maior sucesso da minha carreira, meu primeiro filme com roteiro original e meu filme que foi indicado ao Oscar, respectivamente. Leopoldo era implacável e delicado, romântico e cínico, conservador e ousado, enfim, complexo como a vida.”
Bruno Barreto
[Cineasta]
“Acho mais do que oportuno lembrar a figura de Leopoldo Serran, esse artista tão talentoso e importante, que corre o risco de ser colocado na obscuridade e sumir da memória tantas vezes mesquinha de nosso cinema.
Devo minha formação de roteirista ao Leopoldo e ao Armando Costa. E no ambiente mais inesperado que se possa imaginar: o da pornochanchada. Eles dois vinham do CPC (Centro Popular de Cultura), que, como o nome indica, pretendia fazer cultura para o povo, para politizá-lo. Temáticas nordestinas, teatro sub-brechtiano, shows musicais “de esquerda” para a Zona Sul, e outras formas de “cultura popular”. Não vou nem falar do Cinema Novo. Não sei se eles tinham uma agenda, mas tanto o Leopoldo, que tentara antes a publicidade, quanto o Armando, um boêmio precocemente falecido e de uma fantástica capacidade criativa, precisavam sobreviver. Leopoldo tinha dois filhos para criar, o Armando Costa tinha que sustentar sua mãe. E quem pagava, pouco mas pagava, eram os produtores de pornochanchada.
Fui convidado para dirigir uma história do Armando que virou filme de episódios, com ele e o Leopoldo: Gente Fina é Outra Coisa. Nesse filme aprendi quase tudo que eu sei sobre roteiro. Colaboramos em seguida em O Bom Marido e Embalos de Ipanema. Eu já estava formado e feito mestrado, sem falar que inventáramos um novo gênero a “pornochanchada política” ou “pornochanchada de esquerda”, como quiserem. Está lá nos filmes para quem quiser ver.
Creio que o bom Armando já tinha nos deixado para tornar-se um anjo torto quando o Leopoldo teve premiado seu magistral roteiro Revólver de Brinquedo. Eu, graças à influência de meu mestre e padrinho Glauber Rocha, que sempre demonstrou tolerância com esse prostituto, tinha algum dinheirinho de um financiamento da Embrafilme. O Leopoldo teve a generosidade de me aceitar como diretor. E foi assim que com dois barbantes e um palito de fósforo realizei o que considero um dos dois meus melhores filmes. Revólver de Brinquedo seguiu ao pé da letra o roteiro dele e é uma pequena grande obra-prima. Não posso prová-lo, hoje em dia não existe uma cópia, se existe agradeceria se alguém a descobrisse.
Meus caminhos e os de Leopoldo se separaram, meus clientes se tornaram raros até que veio um convite inesperado. Leopoldo me sugerira para dirigir um roteiro seu de encomenda, produzido por e estrelado por Jece Valadão, o grande cafajeste do Cinema Nacional. Eu estava na mais total miséria, imerso nas drogas e em minha maldição pessoal, vivendo da caridade de desconhecidos, e o convite caiu do céu. Mas era, de certa forma, uma roubada. Tratava-se de uma biografia de Mariel Mariscott de Mattos, um dos Homens de Ouro, um dos fundadores do Esquadrão da Morte, acusado de ser policial corrupto, queimador de arquivo e, heresia das heresias, matador de Lúcio Flávio. Já haviam sido feitos dois filmes sobre esse bandido de classe média, assaltante de bancos e que também praticava queima de arquivos.
Na época vivia-se sob o tacão da ditadura militar, da censura, da tortura, da execução sumária. Qualquer manifestação de rebeldia, mesmo criminal, era bem-vinda. Esses filmes, na verdade eram hagiografias de Lúcio Flávio, terrivelmente maniqueístas. Não foi com esse linguajar erudito que o Jece e seu brilhante filho Beto Valadão, o co-roteirista do Leopoldo, me explicaram a proposta. Segundo eles, o Mariel queria apenas mostrar sua versão dos fatos. Como mais tarde o Leopoldo me explicou, tanto o Mariel quanto o Lúcio eram dois psicopatas, que estavam apenas formalmente em lados opostos da Lei. Ambos eram matadores, sádicos, profundamente narcisistas e travavam um duelo subterrâneo quase genetiano, de fascínio de um pelo outro. Leopoldo, numa manobra brilhante, conseguiria escrever o roteiro no fio da navalha, sem resvalar nem para um lado nem para o outro.
Temos mais de meia dúzia de trabalhos juntos, que eu dirigi. Outros em cinema, que eu comecei e ele acabou. Quando eu fui para a Globo, já desintoxicado, sóbrio e bom rapaz, sempre que havia oportunidade eu o indicava. Quando estava em Nova Iorque de férias e os Barreto me chamaram para fazer o segundo tratamento de O Quatrilho, que eu adaptara do livro para uma minissérie de TV, eu não quis porque estava numa ótima, mas indiquei o Leopoldo. Fiz com o Barretão um gentlemen’s agrément para assinar somente como adaptador. Jamais reivindiquei o crédito de roteirista. Quando o filme foi indicado para o Oscar, fiquei feliz pelo Leopoldo.
Nos últimos tempos ele andava por demais revoltado, as encomendas rareavam, havia novos roteiristas e ele também estava farto com os diretores que não sabiam escrever uma linha, assinavam “um filme de”, e pagavam mal, quando pagavam. Mas o que importa é o roteiro inédito que ele deixou atrás, ambientado em Lisboa, de uma beleza e originalidade inéditas. Leopoldo escrevia em bloquinhos, a lápis, rigorosamente apontados. Depois seu filho os datilografava. Ainda me lembro de algumas tardes num dos apartamentos em que ele morou. Daquela barbicha, daquele homem digno, que às vezes me parecia de outros tempos, de outras épocas.
Às vezes sinto saudades e choro por Leopoldo Serran.”
Antônio Calmon
[Cineasta, roteirista, diretor de Nos Embalos de Ipanema e Eu Matei Lúcio Flávio ]
“Leopoldo Serran foi um dos mais fascinantes seres humanos que conheci. Contraditório, era capaz de, com apenas uma frase, destruir toda uma vida, ideia, filme ou o que quer que fosse. Mas, por outro lado, foi um dos mais leais amigos que todos puderam ter. Sua inteligência e sua mordacidade não conheceram limites e sua obra reflete isso. Algumas das mais brilhantes cenas do cinema brasileiro foram concebidas por ele, no silêncio e no quase anonimato reservado à profissão de roteirista em nosso cinema. Éramos amigos desde a adolescência e eu tive a felicidade de acompanhá-lo indo da poesia para o jornalismo, daí para a publicidade e, finalmente, chegamos quase juntos ao cinema, eu como assistente de direção e ele como roteirista de Ganga Zumba, de Cacá Diegues. Trabalhamos juntos no roteiro de Marília e Marina, meu primeiro filme. Do segundo, por discordar de como eu via o filme, ele pediu para sair. Uma pena, embora ambos soubéssemos que nada abalaria a nossa amizade. Era assim mesmo o Leopoldo. Não foi o único filme que ele pediu para sair. Em alguns, abrindo mão do maior salário que se pagava a um roteirista. A sua integridade e o seu amor pelo cinema não o permitiram, jamais, abrir mão daquilo que pensava. Que falta ele hoje nos faz. Mas seus filmes aí estão.”
Luiz Fernando Goulart
[Cineasta e diretor de Marília e Marina ]
“Talvez o maior paradoxo com que Leopoldo Serran aturdia os que o cercavam era a absoluta descrença em imagens e palavras, embora tenha dedicado toda a vida aos filmes e à arte de criá-los. Dotado de inteligência brilhante e sensibilidade rara, ele não se deixava seduzir pelo aparente. O sucesso fugaz não o iludia, só o que era humano e verdadeiro lhe interessava. Coerentemente, seu grande legado não foi a riqueza material, mas um manancial de ideias e obras ímpares, dramas e comédias que até hoje espelham e revelam nosso imaginário. Leopoldo não está mais entre nós, mas sua marca continua viva na memória dos que conviveram com ele. Para os demais, que não tiveram esse privilégio, ele deixou a fortuna de seus escritos, o tesouro de seus livros e roteiros.”
Alvaro Ramos
[Roteirista]
“Convivi com Leopoldo Serran, um dos maiores criadores do Cinema Novo, que teve um papel importante para mim como artista engajado na criação dessa nova forma de expressão artística e na afirmação do cinema brasileiro. Nosso cinema não seria o que é hoje, se não fosse o gentleman Leopoldo Serran que assumiu a identidade brasileira com dezenas de roteiros. Foi um dos integrantes do movimento CPC (Centro Popular de Cultura), e com seu trabalho incansável era também um dos mais procurados pelos diretores e fez assim sua contribuição para o sucesso de grandes filmes.”
Antônio Pitanga
[Ator e diretor de Na boca do mundo ]
“Trabalhei com Leo durante três anos na criação e desenvolvimento da série Plantão de Polícia. As reuniões eram semanais, mas ele muito solícito na estrutura dos companheiros, pouca atenção dava à estrutura de seu próprio episódio. Ele achava a televisão um meio menor e focava seu interesse no cinema. Até certo ponto um fica e o outro evapora. Não é que tinha razão…”
Doc Comparato
[Roteirista]
“O Bruno Barreto me chamou pra fazer o roteiro do Dona Flor e Seus Dois Maridos. Eu disse “Tudo bem, eu topo. Mas não faço sozinho”. Porque eu odiava fazer roteiro sozinho, aliás, eu não faço nada sozinho. Se você faz uma coisa sozinho, você quer perfeição, e se você quer a perfeição, morre. Quem procura a perfeição vai achar a solidão. Enfim, é sempre bom ter uma segunda pessoa, dois horizontes pra atingir um roteiro que pudesse dar público. Daí eles chamaram o Leopoldo, que eu já conhecia da época do Ganga Zumba, mas sem muita intimidade. Eu me lembro que a gente teve tempo pra trabalhar e a maioria dos encontros foi na casa de Leopoldo, alguns poucos foram na minha casa. A gente se reunia e discutia o filme. O roteiro não passava pra mim, ia pra ele. Era uma discussão conjunta. Não teve atrito nenhum. E eu tenho a impressão de que o Bruno filmou praticamente o roteiro que a gente deu pra ele. E o curioso é que depois de Dona Flor eu nunca fui chamado pra fazer outro roteiro.”
Eduardo Coutinho
[Roteirista e documentarista]
“Pela vida, paixão e morte, Leopoldo Serran foi um carioca da gema. Sua vida de intelectual sem preconceitos, sua paixão pelo cinema, que o levou a percorrer todo os gêneros, e sua morte no auge do vigor criativo, enfrentada com coragem e estoicismo, o colocam entre os maiores profissionais que o cinema brasileiro já teve. Produzi três dos filmes de maior sucesso com roteiro dele e Armando Costa: O Bom Marido, Nos Embalos de Ipanema e Gente Fina é Outra Coisa. Ele era um roteirista sempre aberto à discussão do trabalho, sem ideias fixas, conhecedor e amante da alma humana, nem sempre paciente com as idiossincrasias dos  diretores e produtores. Além da extensa obra de valor inestimável, ele deixou conosco a saudade de um grande amigo”.
Pedro Carlos Rovai
[Diretor e produtor]
“Leopoldo Serran foi, ao lado de Miguel Torres, um dos dois primeiros roteiristas do Cinema Novo. Com formação acadêmica impecável e um conhecimento literário vasto e profundo, Leopoldo ensinou, aos roteiristas brasileiros que vieram depois dele, a como escrever para ser visto. Leopoldo é autor de alguns roteiros clássicos de nosso cinema moderno, de obras revolucionárias a grandes sucessos de bilheteria, sem discriminação de estilo, fiel à origem dos argumentos que lhe eram apresentados. Sinto muita falta de seu trabalho, como sinto saudade de sua presença amiga e solidária. Leopoldo Serran é um dos heróis do cinema brasileiro da segunda metade do século passado.”
Cacá Diegues
[Cineasta, diretor de Ganga Zumba, A Grande Cidade e Bye Bye Brasil ]