[apresentação]

No ano de 2012, Leopoldo Serran, o mais profícuo roteirista brasileiro completaria 70 anos. Ele leva este título, pois roteirizou grandes obras do nosso cinema e acompanhou diversas fases da nossa cinematografia. Desde seu primeiro trabalho em 1963 – em Ganga Zumba, de Cacá Diegues – até seus últimos trabalhos para a TV em 2003 – na série Carga Pesada – Serran se destacou com aclamadas produções e grandes bilheterias.

A fim de homenagear esse grande artista, a CAIXA Cultural Rio de Janeiro traz a mostra Leopoldo Serran: Escrevendo Imagens, que exibirá 20 longas-metragens do roteirista além de três episódios para a TV. A reflexão sobre seu universo se completa com a realização de um curso sobre roteiro com Luiz Carlos Maciel e uma mesa de debates com Doc Comparato, Luiz Carlos Maciel e Antônio Carlos da Fontoura.

A mostra, selecionada pelo Edital 2011 de Ocupação dos Espaços da CAIXA Cultural, destaca obras que exaltam com sutileza detalhes da cultura brasileira, oferecendo ao público a oportunidade de se envolver com o trabalho de um notável artista que soube com maestria levar o Brasil às telas. Mais uma vez a CAIXA sente-se honrada em investir em mais um projeto que traz uma importante colaboração para um maior conhecimento do nosso cinema, numa iniciativa de grande valor sociocultural.

CAIXA ECONÔMICA FEDERAL


Façamos um exercício de imaginação. Fechemos os olhos em um fade out e tentemos preencher este quadro ausente de luz por meio de um fade in, imaginando duas figuras artísticas: o escritor e o diretor de cinema. Certamente, em relação à primeira, imaginaremos um indivíduo isolado, com os olhos atentos diante de um caderno, de uma máquina de escrever ou de um computador. Um criador solitário que apenas está acompanhado de sua matéria-prima faiscante: a palavra. Já a segunda figura, poderá ser evocada, talvez de uma maneira clichê, sentada em uma cadeirinha e com um alto-falante na mão. Ela estará rodeada de um monte de pessoas, entre técnicos e atores, e o que é mais importante, estará dando ordens. Não mais sozinha, sua tarefa será a de orquestrar todos esses talentos que estão à sua volta e, com eles, construir imagens.

Entre essas duas figuras artísticas, há uma terceira, que talvez nem apareça se a evocarmos como imagem em nosso fade in mental, porque ela praticamente inexiste em nosso imaginário coletivo. Essa figura é o roteirista ou o escritor de cinema. Como um elo perdido entre o escritor e o diretor, o roteirista nem mesmo apresenta uma imagem-símbolo, uma imagem-emblema ou sequer uma imagem-clichê. Se vemos um homem ao lado de uma máquina de escrever, imediatamente deduziremos que se trata de um escritor, ou quem sabe um jornalista, nunca um roteirista. Se nos deparamos com a imagem de um homem com o olho colado no visor de uma câmera, intuímos: é o fotógrafo ou o diretor que resolveu checar o enquadramento. Nunca cogitaríamos que poderia ser o roteirista, porque este nem nos sets está presente.

No meio, entre o escritor e o diretor, o escritor de cinema trabalha com a matéria-prima de ambos: a palavra e a imagem. Porém, trabalha com uma palavra de natureza distinta da do escritor, porque se trata de uma palavra que já nasce para ser metamorfoseada em imagem. É uma palavra com uma carga semântica outra, é a palavra-imagem, menos autossuficiente e menos autônoma que a palavra-palavra. Da mesma forma, a imagem com a qual trabalha o roteirista é diferente da que é articulada pelo diretor. A imagem do roteirista é a imagem que não é, é a imagem que virá a ser, a imagem que ainda não deixou de ser palavra. Assim, a palavra-imagem ou a imagem-palavra do roteirista não é nem a crisálida e nem a borboleta, e sim o próprio desejo de metamorfose.

Exercendo um ofício muitas vezes difícil de definir, o roteirista torna-se um anônimo. Um ser que, diferentemente do escritor na noite de autógrafos ou do diretor na avant-première, nunca será o centro das atenções. Isso porque o seu trabalho não é o produto final, não é a obra acabada e sim a potência do que poderá ser essa obra. A materialidade de seu trabalho, o roteiro, não é palpável ou visível como um livro ou filme, mas é ontologicamente oculto dentro do filme. Pois é com o objetivo de reconhecer o trabalho do escritor de cinema, tão fundamental para a sétima arte, que a mostra Leopoldo Serran: Escrevendo Imagens homenageia a obra e o talento de Leopoldo Serran, o mais importante roteirista do cinema brasileiro. Ao homenagear Serran, também prestamos uma homenagem a todos os roteiristas, do Brasil e do mundo.

Dono de um imenso dom para a escrita cinematográfica, Leopoldo Serran assinou seu nome em aproximadamente 30 filmes e 10 trabalhos para a televisão, por mais de quatro décadas dedicadas ao trabalho de escrever imagens. Publicou três de seus roteiros filmados em livro: Tudo Bem (1978) e Duas histórias para cinema: Revólver de Brinquedo e Amor Bandido (1981) e ainda um roteiro que jamais foi filmado: Shirley, a história de um travesti (1979). Publicou também um romance: Arara carioca (2006). Parte de sua obra ainda está por ser conhecida do público, como os ainda inéditos Woman with birds (roteiro original,2004) e O penúltimo caso (romance, 2006-2007). Os filmes que tiveram a sua participação estão aqui para serem vistos, refletidos e discutidos. A mostra Leopoldo Serran: Escrevendo Imagens busca reparar uma lacuna entre as retrospectivas que são realizadas, pois é a primeira dedicada à obra de um roteirista, e presta um merecido tributo a um profissional que exerceu fundamental papel no cinema brasileiro. Vamos, portanto, aos filmes e às reflexões que eles nos suscitam.

ESTEVÃO GARCIA
[curador]